quarta-feira, 21 de junho de 2017

Crônica | Primeiro Porre de Amor.


O primeiro amor é tão tentador quanto o primeiro gole de álcool, bem como, pode ser arriscado e doloroso. Crescemos e ficamos suscetíveis cada vez mais a este mal traquino.

O primeiro amor é gole desavisado. Enchemos a cara de um amor eterno e único. Que porre! Em seguidas doses secamos a garrafa de rum. Que leveza! O coração, taquicárdico, flutua. Ligamos o wifi e enchemos nossas redes sociais de declarações e vômitos poéticos. Que porre!

Parece não existir mundo ou vida antes e depois daquele instante. É o agora infinito resumido naquele gole de amor. Beija-me com o beijo de tua boca porque é melhor teu amor do que o vinho 

Tantas adegas para serem conhecidas. Tantos sorrisos, abraços... Afagos. Quantas infinitudes iguais a estas se farão nessas mesas de am(b)ar? Quantos porres de amores ainda teremos?

Maldita ressaca, a primeira. Parece o fim do mundo a primeira desilusão de amor. Se for para doer tanto assim, nunca mais bebo disto. Que porre!

Doce engano de se enganar outras vezes. Mais uma vez, outras garrafas de amores. Desce mais uma. Anota aí, seu Zé. Hoje estou para essa ‘droga’ de amar.



1 Cânticos 1:2


COPYRIGHT © 2017 MARCELLO SILVA

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Crônica | Último Gole

Na praça do centro, monótono no fervilhar de pessoas que vem e vão a lugares diversos, um homem sentado no banco central, em estado avançado de embriaguez, destampa uma garrafa e toma mais um gole de um coquetel alcoólico. É março e o cheiro de álcool divide espaço com o cheiro de chuva.

O sujeito toma seu gole e acena para o vazio como se pedisse a alguém que viesse ao seu encontro. Poderia ser eu ali, sentado com toda insanidade da minha lucidez, afogado na loucura da sobriedade, acenando para meus monstros cotidianos e invisíveis.

Não. Não posso me aproximar do “sujeito homem” embriagado, tenho medo de me reconhecer nele. Sua dor pode ser a minha, seus medos podem ser os meus... Pode ser eu que esteja ali, vestido de desilusões e egos vazios, sedento por um gole de álcool que alivie meu cansaço de sóbrio.

Ele chora, bate no tórax como se quisesse arrancar algo do lado esquerdo do peito: sua dor, talvez. Mais um gole desce pela garganta ébria como uma espada afiada que aumenta o sangramento e a dor. Enquanto pessoas passam alheias àquele universo conflitante contido naquele banco central da praça, me compadeço daquela figura humana cuja face me lembra o reflexo do meu espelho. 

Ele se levanta, toma seu último gole e sai cambaleante a um destino desconhecido.  


COPYRIGHT © 2017 MARCELLO SILVA


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Crônica | Um latino-americano - Jailson Jr.


Ontem eu encontrei o velho Quincas, o jardineiro que trabalhara em minha casa quando morei em Pedro Juan Caballero. Bebia meu chá-mate em um conhecido café de Montevidéu, e meu espanhol nunca me deu problemas. Falou dos cinco anos que não via Belchior, o velho latino americano de quem éramos amigos. Falamos dele, de como fazia a poesia com amor. Todo mundo conhecia aquele poeta famigerado, bastava ouvir ou ler algo dele. Lembro da nossa última conversa, do último aperto de mão. Andava angustiado, mas feliz por voltar à velha Sobral para uma visitinha, lá o encontrei. Mostrou-me os versos de algo inédito, ainda faltava a melodia, segundo ele, mas eu sabia que aquilo estaria longe de ser um problema. 

Foi uma tarde toda, misterioso e certeiro. Voltei para casa, já sabendo que seria nossa conversa derradeira. Não era fácil vê-lo. Ele era assim. Algum compositor baiano lhe disse que tudo era divino, tudo era maravilhoso, e ele acreditou. Denomino-o assim: divino e maravilhoso. Andava com canções do rádio gravadas à ferro e fogo no inconsciente, que sempre cantava quando não havia o que dizer, o que era raro. 

Aquele velho amigo era o mais existencial dos homens, devo dizer, depois de Sartre. Todos que conheço sabiam de algum verso dele, e isso sempre encheu meus pulmões de orgulho. Agora por último eu não o via mais, nem mesmo pela televisão. Respeitava seu espaço. Suave e intenso. Naquele mesmo dia do café com o Quincas, fiz alguns versos durante o voo de volta ao Brasil. Soube da partida do meu velho amigo por uma televisão do aeroporto, quando voltei. Só consegui chorar dentro do táxi, enquanto a paisagem nua ia passando pela janela que estava embaçada por uma garoa antecessora, com Paralelas na minha sonoplastia mental. Se medisse as palavras e não quisesse agredir ninguém, não seria ele. Autenticidade e brandura não combinavam na pessoa dele. 

Não irei no velório de meu amigo, seria demais. Melhor assim. Deixo-o em seus versos sangrantes, que mal detinham o sentimentalismo, quando o fazia. Essa é a última lembrança que quero levar. Basta que eu escute seus versos sem o pudor em controlar o volume, que valerá por trocentas outras conversas, ele ressuscitará por uns seis minutos, voltará de onde estiver. Foi como quis ir, recluso, ensimesmado. Muitos não sabem, mas ele queria assim, era feliz assim. E sabe, Copacabana? Essa semana o mar é ele. Aquele bigode largo e livre fará falta, mas fazer da vida uma poesia reproduzida será das artes a mais humana. Como foi perversa a juventude do meu coração. Acho que agora abriram o sinal, e a juventude dele se libertou. Sempre.

Mais sobre o amigo autor Jailson Jr. (AQUI)

Poema | Morre tardinha, morre.


O dia morre lento
No morro ali atrás
É levado leve pelo vento
E sugado cada vez mais

Morre tardinha morre
Vem ninar em meus braços…

As mulheres passam vazias
Numa ligeira passagem
Cheias de confusões e melancolias
Como doces e alegres miragens

Morre tardinha morre
Vem ninar em meus braços…

Passou Florine, passou
Cheia de charme e melodia
Cantou uma música, cantou
E deixou meu coração numa euforia

Morre tardinha morre
Vem ninar em meus braços…

Passaram Camilas sorridentes
Como lindos anjos perdidos
Passaram Marias inocentes
De olhares sem sentidos

Morre tardinha morre
Vem ninar em meus braços…

Ficam as ilusões alheias
Guardadas no meu armário
A trade é fria e feia
E o dia necessário

Morre tardinha, morre
No morro ali atrás
E vem ninar em meus braços
Vem. Vem cada vez mais.


COPYRIGHT © 2017 MARCELLO SILVA

sábado, 29 de abril de 2017

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Escritor Marcello Silva participa do 4º Festival de Literatura e Artes Literárias.


Agora em abril de 2017, o escritor chavalense Marcello Silva, autor do livro "O Pescador", participa da quarta edição do FESTIVAL DE LITERATURA E ARTES LITERÁRIAS, ou FLAL (Arte e Estilo), com a participação de 165 autores distribuídos em 220 vagas de bate-papos e entrevistas. O evento é online e iniciou em 1 º de abril e tem a duração de 10 semanas. O público poderá conversar e fazer perguntas em dias e horários específicos para cada um deles. A bate-papo com Marcello Silva será dia 22/04/2017 ás 18h50min. e a entrevista será entre os dias 10 e 11 de maio às 14 h.




Sobre o 4 º FLAL (Arte e Estilo)

O evento totalmente online, grátis e será separado por temáticas. Terá concurso de textos, entrevistas, Quiz literário e debates. Com atividades de interação, brindes, prêmios, dentre outros

O evento é organizado por uma equipe de 10 pessoas em trabalho voluntários: Luiz Amato, Ironi Jaeger, Nell Morato, Daniela Garcia, Elizabeth Machado, Luana Karoliny, Nanci Penna, Lizi Reis, Natali Felix e Roberta de Souza 


Conheça o FLAL - Festival de Literatura e Artes Literárias, em sua 4° Edição - Arte e Estilo na página do evento.

Participe!

https://www.facebook.com/events/1882855601936542/?active_tab=discussion

quarta-feira, 8 de março de 2017

Mil Faces (As mulheres que não vi)



Quantas mulheres se escondem em uma só?
Quantos gritos resumidos, em um único gemido?


Mulheres que não vi
Escondidas sob uma única pele
Detrás de dois olhos apenas.
Quantas personalidades, jeitos, andares,
Olhares… Num único corpo.


Quantas faces!


Amar sob pressão do ódio
Odiar por tanto amar tanto
No entanto
Nunca amar.


Dentro de uma bela reside uma fera
Uma cinderela, branca de neve
Pequena sereia…
Ainda que astutas, também adormecidas


Quantas personagens sem nome!
Quantas vozes caladas!
Quantos caminhos não percorridos,


Roteiros incertos!


Quantas faces!


Quantas utopias esquecidas,
Amores roubados.
Quantas mulheres morrem
Dentro de uma única, sem terem sido, sequer notadas?

SILVA, Marcello. O Pescador. 1ª ed. Chiado Editora, 2015.
Ilustração: Frank Carneiro.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Não se esqueçam da Rosa



Não se esqueça da rosa
Não a “rosa viniciana”; não a rosa do jardim Botânico
Não a rosa do Parque Ibirapuera nem tampouco a rosa do Éden,
Mas a rosa que nasceu em teu quintal
Entre a cerca caída e o muro mal rebocado sob
Entulhos e lixos jogados.

Não se esqueça da rosa,
Plácida, incolor e insípida
O que importa sua cor ou seu cheiro?
Necessário é entender o porquê de seu nascer repentino.

Não se esqueça da rosa
Que com ela trouxe esperança , sentido novo,
Caminho diferente para que tu agora siga
Retilíneo a tua vitória.

SILVA, Marcello. 2017