quarta-feira, 10 de abril de 2019

Cavaleiro Medieval



Eu, cavaleiro medieval. 

Vindo de terras distantes 

Além das matas que se findam ao alcance dos olhos meus 

Perdi-me nos templos antigos 

Em meios a esculturas esbeltas 

Dos deuses, ninfas e anjos solitários. 

Procuro-me todo dia 

Reviro-me ao avesso 

Não me encontro 

Estou repousado na sombra da historia 

Ainda não estudada... 

Nos braços de Vênus me apazíguo e vivo... 


SILVA, Marcello. O Pescador. pag 16, Chiado Editora, 2015
Imagem: Google

terça-feira, 9 de abril de 2019

Conheça a Plataforma "Escrever sem Fronteiras" do Sesc/PI e publique seus textos.


A Plataforma Escrever sem Fronteiras é uma proposta do SESC Piauí de promover a produção literária do estado por meio do fomento e valorização de escritores, sejam eles cronistas, poetas, romancistas, ou até mesmo os que escrevem textos de cunho científico, como artigos, editorias, resenhas; desde que tenham como tema a Literatura.

Como participar?

Os interessados poderão enviar seus textos para o email:
escreversemfronteiras@pi.sesc.com.br

Os materiais enviados passarão por uma seleção realizada por especialistas contratados pelo próprio SESC. Serão emitidas declarações para os escritores, que poderão ainda estar sendo convidados pelo SESC para realizarem bate-papos, rodas de leitura e debate ou até mesmo palestras a partir de suas publicações.

Quais textos podem ser enviados?

Quaisquer um, desde que tenham como tema a literatura ou façam parte da grande gama dos gêneros literários existentes, como: conto; poema; crônica; romance; fábula; Epopeia; Novela; Ensaio; Soneto; Auto; Farsa; entre outros.

Normas Gerais

Caso o escritor tenha seu texto selecionado, deverá ir ao Centro Cultural Sesc Caixeiral (Parnaíba – PI) a fim de que possa assinar a Ficha de Autorização para Publicação;
Caso o escritor more em outro estado, a ficha poderá ser preenchida a próprio punho e enviada por meio de scanner ao mesmo e-mail para o qual o texto foi encaminhando;
No caso dos Artigos Científicos, o número de páginas são 10(dez);

Todo texto encaminhado, seja ele de qual gênero literário for, deve seguir o modelo em anexo no site.




Não deixe de se inscrever!
Dúvidas? (86) 3315 – 8561


domingo, 10 de março de 2019

Uma criança de 80 anos

Foto: Hermeson Oliveira
Ele estranhou aquelas pessoas diferentes chegando na pracinha do bairro pacato. Pessoas comunicativas e jovens com equipamentos tão estranhos. Ele observou de longe a priori. De acordo com o avançar da hora em que os jovens ligavam seus equipamentos, ele se aproximava da praça com seus passos curtos. Sempre cauteloso e observador, sentou no último banco de concreto.

Aquela pracinha tão esquecida, pequenina quase sem vida com seus sólidos cinzentos, agora uma grande imagem era projeta e a meninada chegava aos montes, esbaforida com suas curiosidades nos olhos inquietos.

− O que é isso tia, o que é... É um filme é? − Perguntou um dos meninos.

− Sim, sim é um filme muito massa, espere um pouco e já vai começar − respondeu uma das organizadoras com voz angelical.

Ele, no entanto, permanecia observando aquelas cenas, em silêncio, estranhando deveras, aquele movimento, aquela grande imagem projetada... aquele som sendo testado. Permaneceu ali. 

Agora a praça já vibrava aos sons das crianças. Meninos e meninas de todo o bairro parecia estar ali querendo saber o que se passava. Tudo pronto e o filme iria começar. As crianças se acalmaram sentando em tapetes, mantas e colchas no chão. Ele aproximou mais um pouco. Em seguida mais um pouco e ficou entre as crianças. Observou a projeção e seus olhos fixaram na imagem numa mistura de curiosidade e encanto. 

Ele devia ter entre 70 e 80 anos de idade. Tinha os passos curtos, porém rápidos. Ele vestia uma bermuda preta e uma camisa azul aberta e sobre sua cabeça um boné que lhe cobria os olhos pequenos. Ficou ali imóvel observando as cenas do filme animado. No seu tempo de criança, numa cidade interiorana e sem energia elétrica, certamente não tinha uma TV sequer e agora ele tinha aquela tela enorme e aqueles bichos falantes no seu colo. Naquele instante ele era apenas mais uma criança dentre as demais.

A exibição do filme “Zootopia – Essa cidade é o bicho” já estava quase na metade quando de repente ele se levanta, ajeita o boné e sai rápido da praça. Adentrou aquela rua com a penumbra das luzes fracas. Cinco minutos depois ele retorna segurando a mão de uma criança, sua neta, provavelmente. Sentou no mesmo lugar e apontou para projeção dizendo algo ao ouvido da neta. Ela riu. Eles riram. Eram duas crianças embriagada na animação. Dividiram a pipoca e o suco no seu cinema particular e a céu aberto. Ele era uma criança, sem estilingue; Era o rei de Zootopia.... Como dizia o subtítulo do filme: “aqui você pode ser o que quiser”.



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Filhos da maré

@malusantos
Ainda é noite e Chaval dorme em seu silêncio secular de pedra. Daqui a pouco a maré sobe e é preciso pegar carona com ela para buscar o sustento entre os mangues ao alto mar. Maria do Rosário foi a primeira que acordou e preparou o quebra-jejum. O Galo assustou-se, limpou o bico no orvalho da cerca e cantou, dando início a uma orquestra de cantos galináceo no Bairro do Porto da Missa. A maré vinha logo ali, cheirando a brisa da madrugada.

Antônio Ubiratã pulou da rede e correu para quintal, acendeu sua lamparina e procurou seu carro-de-mão onde agasalhou seus apetrechos: tarrafas, linhas, remos, motor, bornais, etc. A canoa já o aguardava, valsando nas águas calma do Porto.

50 anos de pescador e Ubiratã ainda teme a maré. Respeita cada palma de água. Aprendeu no bailar das ondas, o próprio significado de sua existência. Que o homem é apenas um fio na grande teia da natureza. Um dia tem peixe, outro não. Um dia a maré está calma, no outro você come sal pelo nariz. Aprendeu a respeitar os ciclos das marés e entender as fases da lua e, a partir disto, entender que a vida imita esses vai-e-vem de coisas e pessoas.

Desta vez, a maré demorou mais do que o previsto. Lambeu os beiços das calçadas baixas da rua. O sol já vem surgindo e Ubiratã enche sua canoa com seus equipamentos, comidas e sonhos. Serão quase dois dias nas marés, arranchado nos mangues, pescando peixe entre pernilongos sedentos por suor. Na Canoa, além dos equipamentos, ele leva esperança e deixa na margem um pouco de saudade. Rosário acena para o marido que vai sumindo entre os manguezais. “Que Iemanjá te proteja” diz ela em silêncio, ajeitando a saia e voltando aos seus afazeres doméstico. 

SILVA, Marcello. 2019

Aos Heróis de Minas

Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais /reprodução
Enquanto as montanhas sagram lamas pelos poros, vomitando desesperança pelo vale, outrora verde, homens vestindo coragem desafiam o próprio limite do corpo e da mente na tentativa de amenizar tamanha dor e desilusão neste pedaço de Minas.

Desde do cão Thor, policiais, civis voluntários e bombeiros, principalmente. Esses últimos que não têm rosto e nem nome. Vestem marrons e rastejam sobre a lama a procura de um sopro de vida, quando não, por um corpo apenas que amenize a dor de uma família. Heróis cansáveis com suas máscaras contra o mau cheiro. Eles choram de exaustão e dor diante da imensidão de lama; diante do corpo humano desfigurado pela cobiça; diante do seu salário parcelado em três vezes e seu 13º ainda sem previsão. 

Esses heróis machucados e que sangram, mas esquecem sua própria dor em prol da dor de outrem, diante do cenário desolador. Heróis sem HQ e sem aplausos que tem sede de água e de justiça. Heróis que se reconhecem na face enlameadas do seu próximo entre os galhos. Heróis que vibram com o aceno de um resgatado, seja ele um homem ou um cão. Heróis que amam a vida em sua mais ampla definição. Nem mil medalhas serão suficientes para recompensar teus esforços nesses últimos dias e dos dias que ainda virão.

Bombeiros de Minas, Maranhão, São Paulo, Rio... Em Brumadinho se tornam uma única corporação: Heróis de Minas e eles vestem a esperança de um país que ainda mantém a fé em acreditar em dias melhores.

SILVA, Marcello. 2019

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Livro Homo Cactus é tema de artigo científico apresentado no Congresso Nordestino de Educação


O pesquisador, professor e escritor Antonio José Sales, de Luis Correia/PI, apresentou, no último dia 25 de janeiro, seu trabalho científico no Congresso Nordestino de Educação (CONED) que foi realizado em Parnaíba/PI. O trabalho de Antônio José Sales, tem por base o livro Homo Cactus (Editora Hope, 2018) do escritor chavalense, Marcello Silva. A apresentação ocorreu ás 11h na sala Raquel de Queiroz (prédio da Universidade Federal do Piauí)


Com o tema "Homo Cactus: Uma mostra da resiliência da cultura popular e da literatura oral nordestina", Antonio José Sales faz uma análise da obra, um livro com característica regionalista nordestina e com marcas da tradição oral. A apresentação do pesquisador foi consistente e objetiva, o que levou José Sales a ser bastante elogiado pela banca examinadora. 

O poeta, editor e professor Claucio Ciarlini marcou presença na apresentação, assim como o autor do livro, escritor Marcello Silva.







domingo, 6 de janeiro de 2019

Meu herói não veste capa

(a Otalício)

Meu herói não nasceu nas EUA. Não tem história registrada em quadrinhos e nem virou filme algum.
Meu herói não veste capa, mas, usa uma camisa surrada e suada pelo sol nordestino. Tem cheiro de suor típico dos deuses africanos.
Meu herói não tem visão de calor ou raio-x, pelo contrário, tem hipermetropia de mais de um grau.
Meu herói, feito de carne e osso, tem dor no peito de tanto capinar na roça e seus braços, ao anoitecer, latejam.
Meu Herói não usa máscara, tem suas rugas á mostra, sinal de sua humanidade.
Meu herói ronca, chora... Sente frio. Fica feliz com as chuvas de janeiro e triste com a estiagem de agosto. 
Meu herói... Ah meu herói, não sabes o quanto de metáforas te dedicaria...

SILVA, Marcello.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Oito invernos - Marcello Silva


Teu silêncio é o canto mais sublime que minha alma ouve, minha graúna, que alça voos infindos sobre as tardes tropicais. Tens no semblante observador todas as incógnitas do futuro e ainda assim, traz-me paz no instante presente em que rir, timidamente, entre dentes de leite e outros não (vão) .... Rir, rir no hoje, faz do agora seu voo rasante. 

Oito invernos já. Oitos chuvas. Oito sóis. Oito primaveras. E não era ontem que estava nos meus braços tão pequeninha? Tão frágil... Tão sem plumagem? E agora rabisca no tempo a própria imponência e seu próprio voo. “Veja pai, minhas asas. Já quero voar” 

Não. Não. Você é ainda minha pequenina graúna, querendo colo e com medo dos trovões. Meu peito sempre será seu ninho, quando você precisar vai está a sua espera, não importa a quantidade de invernos ou intensidade deles, estarei lhe aguardando para lhe agasalhar com minha própria pele, se preciso for. 

Lembro quando te peguei nos braços a primeira vez: tive medo de você se desmanchar nas minhas mãos. E como se eu segurasse a própria essência de Deus. Morri e renasci naquele infindo instante de alguns minutos, talvez. Esqueci razão, proporção, tempo, distância... qualquer conceito. Era só eu e você no universo multidimensional. Quando retornei a mim, eu ri... eu sorri deliberadamente e desde então eu sorrio para te ver sorrir. 

Das primeiras palavras pronunciadas; os primeiros passos; a primeira queda de bicicleta ao primeiro texto produzido ontem ou as resoluções matemáticas: é uma honra está ao seu lado e te auxiliar em seu processo de evolução neste plano, em seu voo pleno por estas planícies.... É uma dádiva, ave minha. 

Concluo parafraseando Jose de Alencar[1]: “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Cecília. Cecília, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da Jati não era doce como seu sorriso...”

SILVA, Marcello. 
P.S.: Texto dedicado a Maria Cecília Nunes Silva


[1] Escritor cearense (1829-1877). Autor do livro Iracema (publicado em 1865)