terça-feira, 22 de abril de 2014

A Nelson Rodrigues



Se vivo fosse, o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues, completaria em 2014, 102 anos de idade. Na crônica “O grande sol do escrete”  publicada em 1970, Nelson Rodrigues citou o poeta Rainer Maria Rilke para afirmar o “que chamamos glória é a soma de mal-entendidos em torno de um homem e de uma obra”. Parecia antecipar o próprio epitáfio. Nelson foi e é criticado e aclamado por sua obra.

Dentre a vasta obra “rodriguiana”, Nelson Rodrigues ganhou notoriedade como cronista esportivo. Lendo suas crônicas em “A sombra das chuteiras imortais” e na “A pátria em chuteiras”, fica visível, quase gritante a sua paixão por futebol, especificamente o futebol nacional e em especial a seleção brasileira. Era de um patriotismo futebolístico excepcional e imensurável ao ponto de afirmar que a seleção brasileira de futebol era a pátria em cauções e chuteiras ou que “A Primeira Missa, de Portinari, é inexata. Aqueles índios de biquine, o umbigo á mostra, não deviam estar na tela, ou por outra: - podiam estar, mas de calções, chuteiras e camisas amarelas”.

Tempo bom o seu, caro Nelson. Onde o futebol era arte, era puro, quase divino. À tua época desfilaram os maiores craques da história do nosso futebol. De fato, encantamos o mundo com nossa arte, garra e ginga futebolística. Porém, com o tempo muita coisa mudou: hoje, o futebol tem novas faces, novo interesses; nossos jogadores já não jogam por amor à camisa, se tornaram estrelas comerciais e milionárias; nossa seleção virou moeda  de troca de interesses pessoais. A política se infiltrou no nosso futebol e a corrupção manchou nosso brilho. O futebol em si, se tornou conceitual, jogar bonito virou exceção, ofensa, quase um sacrilégio, onde essa arte é interpretada como falta de respeito ao adversário, levando nossos craques a serem caçados em campo como uma jaguatirica nas matas brasileiras.

Fico imaginando quão imensurável seria tua alegria, senhor Rodrigues, com esse mundial de futebol aqui no Brasil. O futebol de volta para casa, o filho pródigo dos terrenos baldios. Há hora mais oportuna e feliz para um patriota que ama futebol? Deveras. Esse mundial, com seus gastos exorbitantes, vem na hora errada. Torna-se ridícula a realização desse evento mediante as urgentes necessidades básicas dos brasileiros. Temos outras prioridades: temos ‘Garrinchas’ morrendo em corredores de hospitais; temos ‘Pelés’ sem trabalho morando debaixo de viadutos; temos ‘Fredes’ e ‘Neymares’ sem escola pedindo esmola nos semáforos ou assaltando á mão armada. Há ‘Antônios’, ‘Marias’ e ‘Terezas’ esperançando dias melhores. Tão quanto circo eles querem pão.

Apesar dos contrários e incertezas, o brasileiro é um otimista. Nunca ouvir falar de um povo tão forte. Ele acredita no futebol, na seleção e, principalmente, na pátria Brasil. Tenho que concordar com Sr. Nelson Rodrigues: “... homem brasileiro, que é sim, o maior do mundo. Hoje, o Brasil tem a potencialidade criadora de uma nação de napoleões”

Marcello Silva. Chaval/CE, abril 2014