quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Ubatuba: deus de água


Não sei se aprendi primeiro a andar ou nadar; se corri primeiro nos pastos infindáveis entre carnaubeiras ou atravessei a nado as águas turvas do Ubatuba, o rio intermitente que passava no quintal da casa dos meus pais. O rio nasce na região serrana/norte cearense. Sua nascente fica próximo ao distrito de Ubatuba em Granja, daí seu nome. Desde a serra até seu desaguar na maré de Chaval, o rio percorre aproximadamente 60 km, passando por diversas comunidades, dentre elas a minha querida Poção (o próprio nome da comunidade remete ao rio, pois quando ele apartava na estiagem ficava uma grande poça, uma “poção”)

O Rio Ubatuba está ligado diretamente à condição de existência da comunidade Poção. Numa região que sofre com seis meses sem chuva (julho a dezembro) o rio se apresentou, durante muito tempo, como a principal fonte de água para subsistência da comunidade e a referência se o ‘inverno’ (conhecido regionalmente como período chuvoso que compreendem os meses de janeiro a junho) era bom ou não, mensurado pelo nível das cheias (vazão) e o mês que ele ‘desceria com água’.

Recordo os dias de ‘inverno’ que, ansiosos, esperávamos pela ‘água nova’ que desceria no Ubatuba. Bastava chegar janeiro que, a cada chuva a expectativa aumentava. O Cheiro de terra molhada sob os pés descalços na ribanceira do rio. As vezes ele aprontava com a gente e resolvia ‘descer com água’ a noite. Acordávamos com aquele barulho de água nas pedras ou nas moitas de oitis e de um só pulo descíamos as ribanceiras. Mas se tinha uma sensação indescritível era ver a água surgindo, aos poucos, no leito seco. Ver aquele filete de água ganhando vida e logo depois se tornar aquele deus de água, é algo que eu nunca saberei descrever com as minhas singelas metáforas.

Por duas vezes tive medo do Ubatuba: 

A primeira foi em 1998 quando ele rompeu a ribanceira e ameaçou derrubar nossa casa. Relembro a aflição de minha mãe e os familiares ajudando a recolher os animais domésticos; meu pai guardando as ‘coisas’ no alto do telhado. A água ficou a dois palmos do peitoril de tijolo cru. Na frente tinha (ainda hoje tem) um campo de futebol, lembro que ele ficou sob água, e onde nós passamos aquele dia brincando de bola. Toda comunidade parecia estar ali. Aquele dia foi louco (rsrs). Naquele ano mudaríamos de casa. Nos afastamos um pouco do Ubatuba. 

A segunda vez foi em 2009 quando se registrou a maior enchente da história do rio. Ultrapassou todos os limites imagináveis, causando estragos durante toda sua extensão: das serras granjenses às marés chavalenses. Casas, roçados, animais... foram devorados pela fome do rio. A casa dos meus pais ficava a quase dois quilômetros do rio, por detrás um morro e mesmo assim ele veio até perto, parecia que nos procurava. Ficou a cem metros, vomitando água e barro. Encarei seus olhos e tive medo. “Agua não tem cabelo” gritava minha vó.

Hoje resido a quase 100 km do Rio Ubatuba, porém quando possível retorno ao seu leito, não importa se cheio ou seco, preciso estar lá para recarregar meu espírito de criança que ainda corre por lá entre as pedras e as ribanceiras escorregadias. Essa rotina cheia de hora marcada vai aos poucos consumindo nossa criança. É preciso voltar no tempo, reviver boas lembranças para que não morramos de tanto ‘hoje’. É preciso reconectar a deus... ao Ubatuba. 


Marcello Silva, 2018

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